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Há alguns dias escrevi que nós, brasileiros,
fomos objeto de um 171(1) (como se diz no jargão
jurídico) praticado pelos nossos "representantes"
[sic], e deles nos tornamos escravos. É preciso fazer
alguma coisa para acabar com essa ditadura fiscal que estamos
sofrendo.
Antigamente o contribuinte não enfrentava o fisco
com fundado receio de sofrer a retaliação
do mesmo. Era questionar judicialmente alguma questão
fiscal que logo após o contribuinte recebia a visita
da fiscalização. Na época da ditadura,
o contribuinte chegava até a respeitar os "telex
normativo” da Receita Federal. Naquela época,
como eram poucos os que questionavam a legalidade de algum
tributo, a alíquota já era planejada de tal
forma que fosse arrecadado o valor que o governo precisava,
independentemente do pagamento daqueles que iriam questionar
a legalidade do tributo.
O tempo passou, o país democratizou-se e a quantidade
de contribuintes aumentou. Mas, pior de tudo, agigantou-se
a necessidade de recursos dos governos e, conseqüentemente,
avolumou-se a carga tributária. Em 1998 foi promulgada
a nossa "Constituição Cidadã"
e a partir de então o sistema tributário que
existia passou a ser destruído com a imposição
de novos tributos para aumentar a arrecadação
da União independentemente da divisão de receitas
entre União, Estados e Municípios.
A situação chegou a tal ponto que talvez pudéssemos
afirmar que existe uma conspiração do Estado
contra o contribuinte. O Estado está tornando a vida
do contribuinte em um inferno, com cada vez mais tributos,
maior número de obrigações fiscais
e uma complexidade no sistema de fazer inveja. Não
é a toa que a informalidade cresce cada dia no Brasil:
o próprio sistema tributário, pela sua complexidade,
o seu peso e o seu custo, faz com que o contribuinte saia
do sistema.
O governo criou um tipo de anistia para trazer os contribuintes
de volta ao sistema, que foram os programas Refis 1 e Paes
(ou Refis 2). Tanto quanto eu saiba, os dois programas não
deram certo e parece que foi porque os contribuintes não
agüentaram parcelar os impostos atrasados e manter
em dia os impostos correntes (as duas condições
para mantença dos programas). Que tece gente que
se aproveitou desses programas, não resta dúvida,
mas será que todos fizeram?
Assim, se de um lado estamos todos entorpecidos pela situação
em que se encontra o País por culpa exclusiva dos
nossos políticos (e fomos nós que escolhemos,
e se assim o fizemos foi porque não tínhamos
mais escolha, tanto no âmbito federal como no estadual
e no municipal); de outro lado nos encontramos fortemente
pressionados pelos nossos próprios negócios,
também por culpa desses menos políticos. Com
isso, acabamos olhando para os nossos negócios, e...
dane-se o resto.
A minha impressão é de que estamos imitando
avestruz(2). Para não ver a situação
em que nossos políticos nos colocaram, enfiamos a
cabeça no chão por medo, inércia, pela
"Lei do Gerson" ou, enfim, por qualquer razão
que se queria achar como desculpa.
Há muito tempo aprendi que quanto mais abaixamos
a cabeça, mais expomos a traseiro, ficando em uma
posição extremamente delicada e comprometedora.
Se não tomarmos consciência disse, se não
nos despirmos de nossos grandes egos, e não decidirmos,
como se diz por aí, “pegar o touro à
unha e mudar este País, nada disso vai mudar. Aliás,
o Presidente Lula já advertiu: é preciso levantar
o traseiro. Depois não venham dizer que não
foram informados”.
Qual é o interesse dos políticos em mudar
o País? NENHUM. Como já mencionado, os políticos
só estão interessados em vencer a próxima
eleição. É o único interesse
que têm. E para o político todos os meios,
repitam-se todos os meios justificam os fins: vencer as
eleições.
Os nossos "representantes" [sic], a pretexto de
fazerem uma reforma tributária para tornar mais justa
a divisão de rendas do País, nada mais fizeram
do que aumentar a tributação.
Dizem os especialistas que a carga tributária hoje
chega a 40% do PIB. Creio que essa informação
é errada porque não leva em consideração
(i) o custo das empresas e pessoas físicas para cumprirem
as suas respectivas obrigações fiscais; (ii)
o custo da educação suportado pelos contribuintes
tendo em vista que o estado não oferece nada decente
em matéria de educação; (iii) o custo
da saúde arcado pelo contribuinte pelos mesmos motivos;
(iv) o custo da manutenção dos veículos
haja visto o estado das nossas ruas e estradas; (v) etc,
etc, etc.
Outros argumentarão que o tamanho do Estado não
é o problema, e sim o tamanho da dívida. Mas
o governo aumenta a carga tributária e aumenta a
taxa de juros. Será que se for reduzida à
taxa de juros a carga tributária também pode
ser reduzida? Aliás, alguém já viu
algum banco reclamar da carga tributária?
Muito bem lembrado pelo Guilherme Afif Domingos, da Associação
Comercial de São Paulo, a figura do Tiradentes, que
iniciou o movimento da inconfidência contra a alta
dos tributos impostos por Portugal. Era o quinto dos infernos
que se tornou nos dias de hoje nos dois quintos dos infernos.
Não acho que precisamos de outro Tiradentes mas,
precisamos fazer alguma coisa para nos livrar dos grilhões
tributários e dos nossos "representantes"
[sic] feitores de escravo. E isto só será
possível quando tomarmos consciência dos tributos
que pagamos e que vêm embutidos nos produtos disfarçadamente.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...
1. Crime de estelionato previsto no art. 171 do Código
Penal.
2. Diz à lenda que o animal mais medroso da natureza
é a avestruz, que se assusta até com uma simples
borboleta. Quando não vê saída, simplesmente
esconde a cabeça em um buraco na terra.
3. Infelizmente não me lembro do nome do instituto
que fez um estudo segundo o qual temos, em média,
um novo tributo a cada 45 dias.
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